(Re)nascer aos 30: Depois de um pé na bunda, Cacau Ribeiro olhou para o retrovisor e viu que o caminho que havia traçado não a levaria ao "arco-íris". Muitos carimbos no passaporte e (re)descobertas depois, ela renasceu. Clique aqui e acompanhe do começo.

Sobre solidão: a história do meu nome

17.07.2019

 

Minha avó, de quem herdei o nome, fazia questão de reforçar com todas as filhas o quanto era importante casar-se, e, na igreja. Hoje, dias depois de termos celebrado os seus 98 aninhos, fico me perguntando o que vovó falaria agora sobre este assunto.

 

- Mamãe foi mulher valente. A cidade inteira comentava que com ela ninguém podia mexer. 

- Aí de quem ousasse peitar a Mamãe porque ela gostava de uma espingarda, montava no cavalo e cuidava do gado e das nossas terras como ninguém.

 

É comum ouvir um ou outro discurso mais acalorado dos meus tios sobre a altivez da jovem que um dia a vovó foi.

 

Meu avô morreu há alguns anos e sobre ele não há nada de muito heroico para contar. 

 

Na verdade, sei pouquíssimo sobre ele e parece-me que não sou a única. 

 

O que sei é que, desde que entendo-me por gente, vovó morava no sertão brabo do Ceará e meu avô morava com o filho mais velho, nora e netas.

 

Como de costume, ninguém lembrou de falar do velho e falecido Chico na festa da valente Carmelita. Quando a festança acabou, peguei a fila do “até logo vovó” e cumpri o ritual de beijar-lhe a testa e lembrar-lhe pela milésima vez que sou a neta, filha da Gracinha, aquela que chama-se Carmelita também.

 

Afastei-me, enquanto os netos seguiam em fila indiana, ao lado daquela cama que há tantos e tantos anos é de solteiro e pensei no quanto solteiras eram as tardes daquela mulher que parece ter protagonizado sozinha este filme que tinha mais de um ator.

 

Vovó casou todas as filhas, exceto a freira (que no final acabou casando com Deus!). A maioria se divorciou, uma ficou viúva (a freira ainda continua casada). Não sei ao certo se ela e meu avô divorciaram-se, mas meio que sua história de protagonista solitária também gera alguns discursos declamados nos bastidores da minha geração. Uma prima costuma brincar sobre isso ser nossa “maldição”.

 

Ela diz:

 

-Somos mulheres valentes e solitárias. Começou com a vovó e agora não acaba mais.

 

Eu já ouso dizer que carma é manter ao lado alguém que deve dividir o palco conosco, mas que teima em permanecer na coxia. Se o ato pede dois protagonistas, não devemos aceitar nenhum figurante, não devemos seguir com nossas falas sozinhas. Uma cama de solteiro é sempre melhor do que uma cama de casal em que só um costuma deitar sozinho.

 

Eu ainda me pergunto o que vovó diria, se ela fosse capaz de dialogar com a altivez que um dia já teve, sobre este assunto.

 

Vovó, tem alguma história de maldição por trás disto tudo? Para não perder a piada, eu também jogaria esta.

 

E depois que a minha vergonha passasse e já tivéssemos mais intimidade eu não perderia a chance de dizer:

Não imagino o quanto deve ter sido difícil, mas dá tanto gosto contar sua história que até fico com menos medo de seguir em frente sozinha.

 

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