(Re)nascer aos 30: Depois de um pé na bunda, Cacau Ribeiro olhou para o retrovisor e viu que o caminho que havia traçado não a levaria ao "arco-íris". Muitos carimbos no passaporte e (re)descobertas depois, ela renasceu. Clique aqui e acompanhe do começo.

Sobre raízes, dia 5

19.09.2017

 

Depois de uma rasteira (ou mais de uma) da vida, é importante reavaliar as prioridades. Há meses atrás eu não teria dúvida e escolheria um destino mais "prático" e um motivo mais "funcional": um local com o inglês como língua nativa, trabalho e uma pôs-graduçao. Há meses atrás a vida deveria estar "dentro de caixinhas" que me levariam a atingir algum objetivo profissional. Mesmo tendo uma prima que mora aqui, a língua e o que há na cidade faziam com que este destino ficasse sempre em segundo plano. Depois de uma vida toda deixando de escolher entre o que amo e o que é "investimento" dei-me de presente o prazer de fazer "niente" na Cidade Eterna: Roma. 

 

Roma é uma das cidades mais importantes da humanidade. Afinal, a cultura ocidental nasceu aqui. É surpreendente ver por um lado ruas e construções que não parecem em nada com o que conheço do Brasil e ao mesmo tempo enxergar nas pessoas daqui tanto de nós. Qualquer diálogo entre dois Italianos lembra-me a minha família: falam alto, rápido e sempre parece que estão brigando (é lindo, gente!). Estou aqui há apenas alguns dias, mas parece realmente que já estive por aqui antes. Prefiro acreditar que sim!

 

Hoje foi impossível não conseguir um calo, dei minha primeira volta pelo centro de Roma e já sei que voltarei aqui muitas vezes. É impossível aproveitar tudo em só um dia (é muita coisa fantástica por metro quadrado!). Lojas chiques e prédios antigos convivendo em perfeita harmonia. Praças lotadas de história e cheiro de comida boa por todos os cantos. Artistas de rua fazem suas performances e esperam por moedas, enquanto a arte e joias da arquitetura exibem-se em abundância a cada esquina. Tantos rostos diferentes e tantas línguas convivendo em total harmonia. Aquela Roma que já foi alvo de tantas disputas parece unir várias nações em seu aconchegante centro. É muita gente, meu povo (impossível descrever quanta gente tem neste lugar, vejam nas fotos que vou postar no Instagram e facebook!). 

 

Depois de uma longa caminhada pelo centro de Roma paramos ao lado da fonte que fica na Piazza della Rotonda. É neste praça que fica o Panteão: construção com mais de 2 mil anos que possui a maior cúpula de concreto não reforçado do mundo e que atualmente é uma igreja cristã (e também abriga alguns defuntos ilustres!). A primeira coisa a impressionar são as maravilhosas colunas da construção e ao entrar basta olhar para cima para ter a certeza de que quem viveu aqui antes de nós eram "os caras".   

 

Eram umas duas e meia da tarde. Como havíamos trazido comida (temos que aproveitar pois não é em todo lugar que ser farofeiro faz parte da tradição), paramos para comer um atum em lata com legumes e  que , segundo a Andreia (a prima), já vinha com um talher (foi com muito entusiasmo que ela detalhou esta maravilha da modernidade). Bom, só que como o destino precisa me dar algo para contar aqui, é claro que não tinha talher nenhum.

 

Olhei em volta e uma Roma diversa estava a minha frente: eram pessoas do mundo todo tirando fotos do Panteão e como estávamos de costas para a construção todos estavam de frente para gente. Portanto, sairíamos em todas as fotos. A fome, que a esta hora já estava me transformando em um monstro irritado e impaciente, apertou. Abri a latinha, dobrei a tampa de metal e comecei a comer. A Andreia hesitou, afinal comer com a tampa da latinha não faz parte da tradição de farofagem italiana. Mas, acabou por fazer o mesmo. Lá estávamos nós usando a tampa da latinha do atum como talher, enquanto nas mesas, que ficam na calçada dos restaurantes que contornam a pracinha, é servida a melhor (e talvez mais cara) comida italiana.  

 

Mais uma vez a sensação que tive foi: estou em casa. Depois de tantos anos e, mesmo tão distante da cidade, do bairro e do contexto que nos uniu quando adolescentes, aquela era a minha prima e amiga Andreia. A mesma que aprontava comigo, que sumia nos piqueniques, que sempre topava entrar nas minhas loucuras, que me levava nas loucuras dela, que me fazia rir e que ria comigo. Comemos e passamos grande parte da tarde ali brincando de tentar adivinhar quem eram e de onde eram aquelas pessoas . Além de, é claro, para homenagear a terrinha, "mangando" muito do povo. Apesar de tão longe de casa, senti-se em "solo firme".

 

Quando tudo parece estar perdido, é preciso segurar em algo sólido. Se o vento vem forte, não adianta segurar-se em algo que não está bem fixado no chão. Os amores e empregos vem e vão. Por mais que a gente não deseje, estes podem acabam. Porém, há outras relações em nossas vidas que continuam as mesmas não importa o que aconteça. Por isso, se o furacão vem vindo, esqueça do que não é seguro. Para salvar-se procure por raízes fortes. Elas sempre estarão lá e darão conta do trabalho caso precise. Eu até ousei achar que não havia mais força em tais raízes pois são estas as relações que menos alimentamos quando estamos em um relacionamento profundo (seja um amoroso, seja um profissional). Mas, é surpreendente como em um ritmo divino (paciente e persiste) tais relações nos enchem de força quando mais precisamos.

 

Em uma Roma que ainda tem muito a me ensinar, lembrei dos meus. Lembrei de casa. Lembrei também que não há distancia que me separe daqueles que me amam e sempre estarão aqui para ajudar-me a levantar, não importa o tamanho da queda. Em uma Roma que teima em ficar em pé mesmo após tanta coisa acontecer, lembrei que até as construções mais solidas precisam reinventar-se para não sucumbir, mas que algumas energias são divinas e eternas.

 

A todos os amigos de alma (sejam de sangue ou não) quero aproveitar a oportunidade para dizer o quanto os amo. Vocês estão comigo aqui, porque não existe "eu" sem vocês.

 

Buongiorno.

 

 

Veja o Dia 6 clicando aqui.

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