(Re)nascer aos 30: Depois de um pé na bunda, Cacau Ribeiro olhou para o retrovisor e viu que o caminho que havia traçado não a levaria ao "arco-íris". Muitos carimbos no passaporte e (re)descobertas depois, ela renasceu. Clique aqui e acompanhe do começo.

A gente se conhece?

20.12.2018

 

A gente se conhece?
Foi assim que começou nosso primeiro e único diálogo.
Demorei um pouco para lembrar de quem se tratava.
Um amigo em comum compartilhou uma de suas publicações e gostei tanto que resolvi solicitar amizade.
Não costumo fazer isso, mas vi que ela era jornalista e fiquei curiosa.

Contei do amigo em comum, mencionei o começo do texto que havia gostado e até disse para ela: Se não quiser aceitar, tudo bem, eu entendo.
Mas, ela aceitou e entramos no roll de pessoas que não se conhecem mas são amigos no Facebook.
 
Durante a última eleição algumas postagem dela apareceram no meu feed e eu lembrava: é uma postagem daquela menina que eu não conheço.
Ela, como eu, achava um absurdo o Bolsonaro estar tão bem nas pesquisas.
Ela também postava coisas engraçadas e sobre assuntos menos sérios do que nossa situação política.
Eu sempre curtia, porque adorava o jeito que ela escrevia.

Ontem, lembrei dela novamente.
Desta vez, foi culpa do Whatsapp.
Michelle, uma amiga destas que conheço bem, perguntou se eu a conhecia.
Contei tudo que já contei para você.
Olhei outras coisas no celular, voltei para o aplicativo.
Michelle dizia:
 
- Também não a conhecia, eu e ela temos um amigo em comum.
Hoje ele postou que ela morreu.
 
Eu não sei se conseguirei agora descrever para você o que sinto quando recebo notícias de falecimento.
Em resumo, sempre pesa.
Não pesa como levar sacos de areia na cabeça.
Está mais para carregar uma sacola de supermercado, daquelas que parecem leves mas que começam a marcar nossos braços com o tempo.
Essa notícia de falecimento, de alguém que nunca vi, está pesando de uma forma diferente.

Mais cedo eu fui procurar mais informações sobre o ocorrido.
Tenho essa mania meio mórbida de stalkear perfis de gente morta.
Vi que o nosso amigo em comum postou uma nota de despedida no perfil dela.
Encontrei mensagens de outros amigos.
 
"Não vou esquecer do seu sorriso!"
"Fique em paz"
"Não consigo acreditar”

Eu lia aquilo é pensava que nunca teríamos a oportunidade de ir em uma cafeteria para bater aquele papo de quando amigas encontram-se em uma tarde qualquer.
Vi que ela também gostava de cafeterias.
Não vamos falar sobre os ex-namorados, do emprego ou apenas viajar uma no sonho da outra.
Comecei a ler uma a uma suas postagens, na esperança de suprir esta falta e me deparei com a mensagem que nos uniu. Vou ler aqui para vocês.

 

"Dizer pra alguém 'sorrir' pois melhora a depressão, ou expressões parecidas, é tão idiota quanto acreditar que o oposto de depressão é felicidade.Quando o oposto é vitalidade.
Depressão é doença, tristeza é sintoma, entre tantos outros.
Melhora da doença quem trata mesmo, constantemente. Psiquiatra. Psicólogo.
Duro trabalho.
Quanto mais você reduz uma doença co comentários de autoajuda, mais causa peso e dor a quem sofre dela, pois gera uma sensação de incompetência em quem não tem culpa de nada.
É melhor calar a prejudicar uma pessoa com esses preconceitos.
Falar para alguém que não consegue sequer levantar e escovar os dentes por dias que ele deve 'sorrir' é, no mínimo, cruel."

Ler isso é como levar um murro no estômago.
Porque, poxa, a gente de fato se conhecia.

Acho que ela escreveu isso naqueles dias em que a gente consegue falar sobre a amiga que temos em comum.
Tava tão na cara.
Como eu não percebi?
Mas o Facebook não disse nada naquele cantinho de amigos em comum né?

Como consolo, tenho dito para mim que talvez um dia a gente se encontre.
Temos tanto sobre nossa amiga em comum para falar.
Que ela chega sem ser chamada e cola mais que chiclete.
Que é forte e insistente.
Quando você pensa que não , lá está ela novamente.
Eu ainda quero falar com ela sobre nossas batalhas, nossas vitórias e farei questão de dizer que não há derrota.
Porque eu e ela, a gente sabe que não há nada sobre isso para falar.
A gente sabe que LUTA é nosso sobrenome. 
Porque, a gente se conhece muito bem.
Pena que eu estava muito “online” para perceber que sua última batalha estava tão próxima.

Sinto muito, Andreia. 

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